O país do pião

Li um artigo da época das olimpíadas, onde um repórter brasileiro comenta a qualidade do atendimento hoteleiro na China. Hotel para repórteres estrangeiros fazendo cobertura dos jogos olímpicos, fique bem entendido. Basicamente, o repórter comentou que o hotel era muito novo, luxuoso, cinco estrelas, mas o atendimento deixava a desejar: poucos funcionários do hotel falavam outra língua além de chinês, todos tinham ‘trainee’ no crachá, e a maioria tinha chegado de distritos rurais na semana anterior para trabalhar no hotel. De acordo com o repórter, até pedir uma coisa simples como um sanduíche de queijo era difícil: os funcionários não sabiam o que é sanduíche, não sabiam o que é queijo, e não sabiam o que é hóspede. E o detalhe de só falarem chinês, por sinal, é coisa do regime deles mesmo: não sabendo línguas estrangeiras, eles não se comunicam com estrangeiros, e portanto estão “protegidos” (de idéias estrangeiras, entende?). O hotel pertence ao governo, ou seja, ao partido comunista.

E foi assim até que o repórter descobriu como ser bem atendido – era só invocar o poderoso nome do partido comunista. Nas palavras do repórter: “Quero uma banana.” “Não há bananas, senhor.” “Então liga pro partido e pede uma banana, que eu preciso de uma.” A banana aparecia. “Preciso de um táxi.” “Não há como chamar um táxi aqui, senhor, isto é impossível.” “Então liga pro partido e pede um táxi, que eu preciso de um com urgência.” O táxi aparecia.

Daí eu me lembrei de uns detalhes que fiquei sabendo sobre a África. Em alguns países de lá, quem manda é quem grita mais. A lógica é mais ou menos assim: você, um estrangeiro trabalhando em um país da África, é abordado na rua por um policial. Você mostra seus documentos e até seu passaporte, tudo certinho, tudo em dia, mas ainda assim o policial implica com você e fica falando alto contigo, querendo encontrar algum motivo para te intimidar (e se brincar, é possível que você perceba que ele não sabe ler e está fingindo ler seus documentos). Bom, você é estrangeiro na África, o cara é autoridade e está te intimidando. Qual a reação correta? Se você for ocidentalmente educado e tentar argumentar com ele de forma civilizada, é até capaz de ir detido, nem que seja para ser solto logo em seguida. Mas de qualquer forma vai perder tempo. Então qual a reação correta? Mostre os documentos e fale alto com ele, como se você fosse mais autoridade que ele, e como se estivesse certo e ele errado. Seja ríspido, demonstre-se insatisfeito e expresse sua indignação por estar sendo atrasado sem motivo.

A lógica do africano nesse caso aí é mais ou menos assim: “se esse cara está falando assim comigo deve ser porque ele pode”. E a atitude de intimidação some, e você é bem tratado. Manda quem fala mais alto. Herança do tribalismo. A coisa pode chegar ao ponto de, por exemplo, um ministro do país delegar uma tarefa a um subalterno e o cara não fazer nada na ausência do ministro; não por preguiça, mas porque a herança cultural diz a ele que ele precisa do chefe da tribo ao lado dele pra ir dizendo o que ele deve fazer, e ele, obedientemente, vai fazendo. Mas pensamento independente, mesmo que seja em cumprimento a ordens, é pedir demais.

Democracia, então, nem pensar. Isso só funciona se os cidadãos de um país forem bem instruídos e capazes de pensamento crítico. Quantas pessoas com pensamento crítico você conhece aqui, no nosso país? Qual a percentagem dessas pessoas com relação à população votante inteira? É suficiente para eleger candidatos que realmente façam diferença, e cobrar compromisso desses candidatos? Nem eu mesmo faço isto. Entende onde estou querendo chegar?

Na China, não rola pensamento independente porque a população foi ensinada assim. Séculos de cultura contrária. E além disso, claro, o governo comunista e controlador. Em alguns lugares da África, também não rola pensamento independente , devido à herança cultural, mesmo que a estrutura política do país já seja de abertura. Países diferentes e com culturas diferentes, mas com um mesmo tipo de problema milenar.

Bom, o nosso país é (em tese) democrático, nós escolhemos nossos governantes, e podemos cobrar deles as ações que queremos ver. Só não fazemos isso. Nosso povo, particularmente nas classes “menos favorecidas”, não gosta muito dessa coisa de pensamento independente; dá muito trabalho. E depois, eu vou votar mesmo é em quem resolver meus problemas: no candidato que me der um emprego, me arranjar um óculos ou dentadura novos, uns dois sacos de cimento pra eu terminar o puxadinho do lado da casa. O programa do CQC outro dia desses entrevistou uma pessoa na rua, antes das eleições, sacudindo a bandeira de um candidato, e espertamente perguntou se ela estava fazendo aquela propaganda toda porque tinha ganhado grana do candidato. A resposta? Claro que sim, disse ela, tô ganhando 600 reais aqui. “E eu voto nele porque ele me deu emprego!”

Democracia pra quê? Eu quero é clientelismo. Sistema de governo, sistema judiciário, pra quê? Quem tiver mais influência manda mais. Substitua “influência” por “fala mais alto” ou “tem mais munição monetária” e a verdade se mantêm.

E eu ainda nem toquei em outro aspecto, o de que, se estivéssemos mesmo exercendo nosso papel de cidadãos, iríamos votar em quem? Aqui no Brasil, hoje em dia, virtualmente todos os partidos são iguais – não há mais diferenças ideológicas. Qualquer candidato de qualquer ideologia partidária irá ter um governo virtualmente igual aos outros. Não faz diferença. O choque que se esperava do presidente Lula na economia e no governo não veio, basicamente estes dois mandatos foram uma continuidade dos governos anteriores. As mudanças que há de um governo para outro não são tão grandes assim e não têm nada a ver com a ideologia pregada pelo partido, mas sim com a conveniência.

Soma agora todos os assuntos… China, África, democracia que precisa de pensamento crítico e educação pra funcionar, panorama pólítico sem muita chance de mudança… e daí eu fiquei pensando… quem seria o melhor líder para este país? Numa situação em que todos os candidatos devem ser iguais, que tal jogar um “coringa” no baralho pra ver se muda alguma coisa?

OOOÊÊÊÊÊ!!!

OOOÊÊÊÊÊ!!!

O melhor candidato possível, dadas as condições, seria… o Sílvio Santos. Pensa bem – ele já ganha grana demais com as empresas dele mesmo, não ia ter muito interesse de participar de roubalheira. E depois, já tá acostumado a fazer a alegria do povo, o mesmo povo que aparenta não ligar pra democracia, mesmo. Satisfaz a necessidade popular de espetáculos. Reafirma nossa política absurda, institucionalizando o clientelismo e, de quebra, o messianismo político. Ou seja, não ia mudar nada.

Imagina:

OooOOÊÊÊ, brasileiros e brasileiras, BOA NOITEEmm! Tudo bem com vocês? Eu venho aqui para falar de um assunto muito sério: a situação do sistema de SAÚDEmm e da EDUCAÇÃO PÚBLICAmm! A coisa não vai bem, a coisa não vai bem. Eu tenho aqui 10 bilhões de reais pra investir em uma ou outra. São 10 bilhões de reais em barras de ouro que VALEM MUITO MAIS DO QUE DINHEIROOOmmm! Eu tenho aqui 10 bilhões de reais, vou investir 10 bilhões de reais em educação ou na saúde pública. Aonde é pra investir, na educação ou na saúde? Na educação ou na saúde? O pião vai decidir. Patrícia, RODA O PIÃOOOmm!

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Pião da Casa Própria

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